Filmes em debate
Morangos Silvestres
Comida, memória e afeto

Isak Borg (Victor Sjöström) é um professor de medicina que revisita vários momentos marcantes de seu passado durante uma viagem de carro até sua antiga universidade, onde ele irá receber uma honraria. Acompanhado de sua nora Marianne (Ingrid Thulin) ele evoca memória de sua família e de sua ex-namorada. Durante a viagem ele conhece uma garota adolescente que em muito se assemelha a Sara, seu antigo amor. A jovem pega carona com o professor e Marianne. Quanto mais Borg recorda as decepções e desilusões que viveu, mais ele se sente frio e cheio de culpa. Esses sentimentos se afloram quando ele encontra seu filho, igualmente frio e ressentido.
Morangos Silvestres: comida, memória e afeto
A história de uma vida a partir de um morango

No filme, o personagem principal se vê de volta no tempo quando entra em contato com o sabor dos morangos silvestres que faziam parte de sua juventude. Afetos de toda ordem voltam à cena e produzem um balanço daquela vida, do que foi, do que poderia ter sido e do que não foi. O envelhecimento soma memórias da infância e juventude e incorpora outros sabores, doces, fortes, sutis, ácidos, amargos, não do alimento em si, mas das relações que estabelecemos, das escolhas que fizemos e das memórias gustativas que guardamos, fazendo com que as propriedades não estejam apenas nas papilas gustativas ou no corpo biológico, mas na memória afetiva que deixou a sua marca e lembranças.
A memória, portanto, é um fator central nessa composição que faz com que um determinado sabor acompanhe a nossa existência, pois sabemos que desde a amamentação e da primeira infância, a comida é quem medeia a relação com o outro e com o mundo, fazendo com que os rastros dessa memória nos acompanhem até o fim
Falando a respeito (vídeos):
"Os gostos pessoais, as lembranças familiares e os significados de determinadas comidas compõem nossas memórias gustativas que, geralmente, não são moldadas por uma pré-disposição biológica ou genética, elas são construídas na cultura, na família e na história de vida de cada um."
Sugestões de leitura
Memória e Vida | Henri Bergson
BERGSON, H. Memória e Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
Convite à Filosofia | M. Chauí
CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ed. Ática, 2000.
A lógica do sentido | Gilles Deleuze
DELEUZE, G. A lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.
Em busca do tempo perdido | Marcel Proust
PROUST, M. Em busca do tempo perdido. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
Memória e sociedade: lembranças dos velhos | Ecléa Bosi
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Conta de mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira | Roberto DaMatta
DAMATTA, R. Conta de mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993..
Bergsonismo | Gilles Deleuze
DELEUZE, G. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 1999.
Por uma filosofia da diferença: Deleuze, o pensador nômade | Regina Shöpke
SCHÖPKE, R. Por uma filosofia da diferença: Deleuze, o pensador nômade. São Paulo: Edusp, 2004