Filmes em debate
O diário de Bridget Jones
O controle dos corpos femininos

O diário de Bridget Jones
Produção
Reino Unido e Estados Unidos / 2001
Direção
Sharon Maguire
Bridget Jones (Renée Zellweger) é uma mulher de 32 anos que, em pleno Ano Novo, decide que já está mais do que na hora de tomar o controle de sua própria vida e começar a escrever um diário. Com isso, Bridget começa a escrever o mais provocativo, erótico e histérico livro que já esteve na cabeceira de sua cama, onde ela irá colocar também suas opiniões sobre os mais diversos assuntos de sua nova vida.
O diário de Bridget Jones: o controle dos corpos femininos
Sua oralidade é também um dito, um endereçamento desesperado e incessante a um parceiro que não pode jamais lhe escutar.

A naturalização do controle sobre o corpo feminino aparece no filme de forma caricata, como se a cobrança acerca dos cuidados com o corpo feminino e a moralidade que a personagem sofre fossem banais e engraçadas, como se fossem atributos e cobranças naturais, comuns para qualquer mulher, fazendo com que a identificação com a personagem se intensifique. Se as cobranças que Bridget experimenta fossem irreais elas não gerariam tanta empatia com o público. A eficácia do filme está justamente no fato de que o controle social sobre o corpo feminino e as práticas de Bridget Jones estão presentes na vida de muitas mulheres.
O sexo é tomado, a partir do século XIX, como o lócus de controle dos corpos, da regulação da vida dos indivíduos. A sexualidade se apresenta para além de um discurso sobre a organização fisiológica do corpo, mas como prolongamento de uma analítica do poder em que a interiorização da norma corresponde a uma inserção dócil nos corpos e à sua subjetivação. E isso se perpetua até os dias atuais, ou seja, os corpos femininos vêm a ser fruto das relações de poder regidos por um padrão de referência, que era o corpo masculino. O poder biomédico também surge como um dos marcadores que imperam e ditam regras que se imprimem no corpo feminino. A questão está justamente na forma sutil e naturalizada em que isto se coloca para a sociedade, empreendendo uma moralidade sobre estes corpos.
Teodoro, o segundo marido, é incapaz de perceber no licor de araçá a quentura e o alaranjado da pele morena de sua mulher. Ele é a norma purificada, o corretamente viável para compor a boa figura de marido. Não é um amante ardoroso, não pode sequer ser chamado de amante. Teodoro é o marido que atende às exigências sociais. É exemplo de virtude e moral.
Falando a respeito (vídeos):
"Nosso objetivo é, a partir de aspectos apresentados no filme, discutir a relação entre controle dos corpos femininos e o uso de substâncias, que nessa obra podem ser a comida, o tabaco e as bebidas alcoólicas. Levamos ainda em consideração que o comer e o beber juntos podem fortalecer o vínculo e a amizade, mas também podem enfatizar uma relação de poder existente."
Sugestões de leitura
O riso: ensaio sobre a significação do cômico | Henri Bergson
BERGSON, H. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
A história das mulheres e as representações do feminino na história | Losandro A. Tedeschi
TEDESCHI, L.A. A história das mulheres e as representações do feminino na história. Curt Nimuendajú. Campinas, 2008.
Mal-estar na atualidade | Joel Birman
BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
História da sexualidade I: A vontade de saber | Michel Foucault
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.