Filmes em debate
Dona Flor e seus dois maridos
Flor e Florípedes: uma única e realizada mulher

Durante o carnaval de 1943 na Bahia, Vadinho (José Wilker), um mulherengo e jogador inveterado, morre repentinamente. Sua mulher, Dona Flor (Sônia Braga), fica inconsolável, pois apesar de ter vários defeitos, ele era um excelente amante. Após algum tempo ela se casa com Teodoro Madureira (Mauro Mendonça), um farmacêutico que é exatamente o oposto do primeiro marido. Ela passa a ter uma vida estável e tranquila, mas tediosa, e de tanto "chamar" por Vadinho, um dia ele aparece nu na sua cama. Ela, então, pede ajuda a uma amiga, dizendo que quase foi seduzida pelo finado esposo. Um pai de santo se prontifica a afastar o espírito de Vadinho, mas existe um problema: no fundo, Flor quer que ele fique, pois ela tem um forte desejo que precisa ser saciado.
Dona Flor e seus dois maridos: Flor e Florípedes: uma única e realizada mulher
A comida representada por Vadinho e Teodoro
Teodoro, o segundo marido, é incapaz de perceber no licor de araçá a quentura e o alaranjado da pele morena de sua mulher. Ele é a norma purificada, o corretamente viável para compor a boa figura de marido. Não é um amante ardoroso, não pode sequer ser chamado de amante. Teodoro é o marido que atende às exigências sociais. É exemplo de virtude e moral.
Os calores, o dendê, a pimenta, a cebola, o abacate, o mel são elementos muito presentes na culinária baiana que chegam ao filme personalizados por Vadinho, o primeiro e falecido marido. A simbiose entre a comida e o corpo se faz presente de forma bastante enfática. O corpo também é comida em Dona Flor. Vadinho tem o gosto de comida boa.Falando a respeito (vídeos):
"O filme como o lugar-de-olhar nos mostra que o lirismo e a sedução são marcas presentes nas preparações de D. Flor. As carnes são oriundas de caça ou animais livres do mar, fora do cativeiro, que dão aos pratos o estilo de quem sabe lidar com o que não foi domesticado. São aplicadas técnicas culinárias delicadas para se chegar a aromas e sabores fortes, como o dendê, e ardentes, como a pimenta. Uma culinária que, assim como a personagem, prepara iguarias com o fogo arrebatador da sabedoria e a sutileza elaborada do conhecimento."
Sugestões de leitura
Literatura e sociedade: estudo de teoria e história literária | Antonio Candido
CANDIDO, A. Literatura e sociedade: estudo de teoria e história literária. Companhia Editora Nacional, 1980.
Caderno de leituras - A literatura de Jorge Amado: orientações para o trabalho em sala de aula | N.S Goldstein
GOLDSTEIN, N.S. (Org.). Caderno de leituras - A literatura de Jorge Amado: orientações para o trabalho em sala de aula. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Análise de Discurso: princípios e procedimentos. | Eni P. Orlandi
ORLANDI, E. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2001.
A identidade Cultural na pós-modernidade | Stuart Hall
HALL, S. A identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
Alimentação, sociedade e cultura | J. Contreras, M. Gracia
CONTRERAS, J.; GRACIA, M. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro. Editora Fiocruz, 2011.
O Livro da Hospitalidade | Alain Montadon
MONTADON, A. O Livro da Hospitalidade. São Paulo: Senac, 2011.
O cinema ou o homem imaginário: ensaio de antropologia sociológica | Edgar Morin
MORIN, E. O cinema ou o homem imaginário: ensaio de antropologia sociológica. São Paulo: É Realizações, 2014.
Cinema: tempo, memória, análise | Jorge Seabra
SEABRA, J. Cinema: tempo, memória, análise. Universidade de Coimbra, 2014. P. 72-80.