Filmes em debate
Filhas do vento
Comensalidade e racismo

Numa pequena cidade em Minas Gerais as irmãs Maria "Cida" Aparecida (Taís Araújo) e Maria "Ju" da Ajuda (Thalma de Freitas) têm objetivos bem distintos. A primeira quer se tornar uma famosa atriz e para isto é imperativo que deixe o lugarejo, já a segunda só pensa em namorar. Vivem com Zé das Bicicletas (Mílton Gonçalves), o pai delas, que foi abandonado pela mulher e é muito rigoroso com o comportamento das filhas. Quando ele acusa injustamente Cida de estar se envolvendo com Marquinhos (Rocco Pitanga), o namorado de Ju, ela fica tão magoada que deixa a cidade e vai para o Rio de Janeiro na esperança de ser atriz, e consegue. A vida de cada irmã seguiu seu curso e elas ficam sem se falar por mais de 4 décadas. Com a morte de Zé das Bicicletas, Cida retorna para a sua cidade natal para o enterro do pai. O encontro dela com Ju será inevitável, mas elas têm muita mágoa uma da outra e talvez seja difícil resolver 40 anos em alguns dias.
Filhas do vento: Comensalidade e racismo
O trabalho de Joel Zito fez de sua ficção um panteão da teledramaturgia negra e da luta antirracista
Os diferentes momentos da comensalidade em família, em que o sentar à mesa está sempre presente, seja na proximidade do fogão a lenha, seja ao ar livre, são momentos de celebração dos laços de parentesco e da instância primordial para o estabelecimento de fronteiras e papéis sociais.
No universo representacional escasso para se referir sobre a família negra, no mito de sua negação através das novelas e da retórica da comunidade imaginada, as situações de comensalidade em Filhas do Vento apresentam três modelos de referência: a família patriarcal com ausência da mãe, situada no universo imaginário de Zé da Bicicleta; a família matrifocada, constituída pelo exemplo de Dona Ju, contraposto ao de Cida; e a crise da família na perspectiva de Selma. Em todos os casos, as fronteiras dos papéis das mulheres são discutidas num contraponto ao silêncio e ao modelo do casamento interétnico que serviu de paradigma para o mito da democracia racial.
Falando a respeito (vídeos):
"A narrativa cinematográfica de Filhas do Vento tem na comensalidade um dos lugares centrais para elaborar os papéis e sentidos da família negra."
Sugestões de leitura
A negação do Brasil. O negro na telenovela brasileira | Joel Zito Araújo
ARAÚJO, J. Z. A negação do Brasil. O negro na telenovela brasileira. São Paulo: SENAC, 2000.
A Invenção do cotidiano: 2 morar, cozinhar | Michel Certeau, Luce Giard, Pierre Mayol
CERTEAU, M.; GIARD, L.; MAYOL, P. A Invenção do cotidiano: 2 morar, cozinhar. Petrópolis: Vozes, 2005.
Pureza e Perigo | Mary Douglas
DOUGLAS, M. Pureza e Perigo. São Paulo: Perspectivas, 2012.
Bagagem | Adélia Prado
PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011.
A distinção: crítica social do julgamento | Pierre Bourdieu
BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo/Porto Alegre: EDUSC/Zouk, 2007.
Comida como cultura | Massimo Montanari
MONTANARI, M. Comida como cultura. São Paulo: Editora Senac, 2008.
Mulher, raça e classe | Angela Davis
DAVIS, A. Mulher, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2005.
O processo civilizador: uma história dos costumes | Norbert Elias
ELIAS, N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.